Histórias de luta, diversidade e justiça social marcam última noite do ciclo de colações 2024.2 em Fortaleza

Por cerca de cinco décadas, vestir uma beca e receber o diploma de graduação parecia um sonho distante para Ivoneide Araujo de Castro. Filha de um casal de agricultores, com 13 irmãos, o ensino médio teve que ser abandonado cedo para dar lugar ao trabalho no comércio. “Passava de ônibus por aqui (Reitoria) e pensava nos colegas que conseguiram realizar este sonho.” Na noite de quinta-feira (3), foi a vez de ela realizar esse desejo. Ao lado de mais 516 concludentes, Ivoneide, aos 71 anos de idade, esteve na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará (UFC) para sua colação de grau.   

Fotografia de concludentes colando grau na Concha Acústica da UFC (Foto: Ribamar Neto / UFC Informa)

Agora formada em Psicologia e fazendo planos para atuação clínica, ela se descreve como “uma pessoa bem maior” após sua vivência na Universidade: “Passei a analisar tudo o que aprendi ao longo da vida e questionar o senso comum”. Além de seus esforços individuais em terminar o ensino médio por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e estudar em casa para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), Ivoneide destaca a contribuição das políticas públicas para seu ingresso na Universidade por meio das cotas.

Fotografia de Ivoneide Araujo, concludente de Psiciologia

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Mais do que um lugar onde se assiste a aulas e se obtém um diploma, a Universidade também tem papel fundamental para descobertas e transformações pessoais, bem como para promoção da justiça social. Políticas públicas, como o Sistema de Seleção Unificada (SISU), as cotas e a ampliação da assistência estudantil, possibilitaram uma maior democratização do acesso ao ensino superior. Uma mudança refletida em rostos, corpos e falas de estudantes tão diversos como diversa é a sociedade e que exigiu avanços da própria Universidade.

Vitória Kethlen concluiu a graduação em Pedagogia aos 23 anos e já tem planos para o mestrado. Além de seu desempenho acadêmico, a estudante deixou marcas, até mesmo físicas, de sua passagem pela Faculdade de Educação (FACED). Hoje, após sua mobilização e o apoio da Secretaria de Acessibilidade UFC Inclui, o prédio possui um banheiro completamente reformado e adaptado à acessibilidade. “Foi uma jornada bem desafiadora, tanto entrar em uma federal quanto em ser uma pessoa com deficiência (PCD)”, conta. Para ela, a política de cotas incentiva o ingresso de PCDs. “No meu curso, quando entrei, não havia outras PCDs, já hoje tem”.

Fotografia de Vitória Kethlen, concludente de Pedagogia (Foto: Ribamar Neto / UFC Informa)

Alão Aguiar, de 22 anos, é a primeira pessoa com ensino superior em sua família. “O SISU e as cotas foram muito importantes para isso, tive uma oportunidade que meus pais não tiveram. É uma questão de justiça social mesmo.” Durante o curso, de Letras-Português, fez duas descobertas: a paixão pela linguística e a identificação como pessoa transgênera. Duas experiências que se unem em seu projeto de mestrado, já aprovado na própria UFC, sobre linguagem neutra e outras linguagens dissidentes de gênero. “Descobri-me trans na pandemia de covid-19, me interessei pelo assunto e encontrei apoio em professores do curso abertos ao tema.”  

Fotografia de Alão Aguiar, concludente de Letras-Português (Foto: Ribamar Neto / UFC Informa)

Luta e organização são duas palavras bastante presentes na conversa com Renato Gomes da Costa. Com 50 anos, o Cacique Renato do Povo Potyguara, como é conhecido, fez parte do movimento para a oferta da Licenciatura Intercultural Indígena Kuaba (LII KUABA) pela UFC. A colação de grau celebra “um momento sonhado, depois de muita luta, muita viagem, muito pneu furado, muito cansaço também, porque as aulas ocorriam parte na UFC e parte nos territórios”.

Já graduado em História pela Universidade do Vale do Acaraú (UVA) e, desde 2004, professor de História e Geografia no Estado, a graduação na LII KUABA contribui para sua experiência em sala de aula. “Foi uma preparação a mais, de conhecimento científico, de  troca entre parentes e aprendizado com professores da UFC”, diz Renato, que já está cursando uma especialização em História e preparando a candidatura para o mestrado em História na UFC. 

Fotografia de Renato Gomes da Costa, concludente da Licenciatura Intercultural Indígena Kuaba (Foto: Ribamar Neto / UFC Informa)

A terceira e última noite do ciclo de colação de grau 2024.2 em Fortaleza marcou a outorga do título de nível superior a 517 concludentes dos cursos do Centro de Humanidades (CH) e das Faculdades de Direito (FADIR), Educação (FACED) e Economia, Administração, Atuária e Contabilidade (FEAAC). 

DISCURSOS – Como oradora discente, Diana Géssica Duarte Abreu, do curso de Pedagogia, disse que os concludentes entraram na Universidade com sonhos e expectativas e agora saem com outros sonhos e novas expectativas. “Entretanto, diferente daquele início, saímos mais fortes, mais capacitados e mais conscientes do nosso papel e com duas novas responsabilidades sociais: a de defender a universidade pública, gratuita e democrática e a de retribuir à sociedade com os frutos que aqui colhemos”, pontuou. 

Fotografia de Diana Abreu, oradora discente (Foto: Ribamar Neto / UFC Informa)

Editinete André da Rocha Garcia, do Departamento de Contabilidade da FEAAC, foi escolhida como oradora docente. Ao parabenizar os formandos, citou Antoine de Saint-Exupéry, em O pequeno príncipe: “‘Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas’. Cada um de vocês foi cativado por nós docentes e nos cativou. Agora têm a missão de levar aos outros o que aprenderam aqui, não apenas como profissionais, mas como seres humanos”.

Fotografia da Profa. Editinete Garcia, oradora docente (Foto: Ribamar Neto / UFC Informa)

Encerrando a solenidade, o reitor da UFC, professor Custódio Almeida, disse em seu discurso que a Universidade tem orgulho de formar cidadãos comprometidos com a Ciência, o desenvolvimento da sociedade e do país, a justiça social e a defesa da natureza e da vida. “Agora vocês são graduados, como bacharéis ou licenciados, em suas áreas. Mas não se contentem com isso, porque vocês conquistaram mais do que a conclusão de um curso de nível superior; vocês conquistaram a liberdade para serem o que quiserem ser”, destacou.

Na próxima semana o ciclo de colações de grau 2024.2 continua no interior do Estado, com as solenidades para os concludentes dos cursos ofertados nos campi da UFC em Crateús, na terça-feira (8), e em Sobral, na quarta-feira (9). Até o final do mês serão realizadas também as outorgas de grau nos campi em Itapajé (15 de abril), Russas (28 de abril) e Quixadá (29 de abril). 

Fonte: Secretaria de Comunicação e Marketing (UFC Informa) – e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.